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ELLA PACHECO
ELLA PACHECO
textos
TUDO E AO MESMO TEMPO
"Os trabalhos de Ella Pacheco se manifestam no espaço, são “coisas” como a artista gosta de chamar. Quem dá o tom das cores são essas próprias coisas, objetos encontrados em caçambas em seus percursos pela cidade.
A janela do prédio ao lado, o muro do vizinho ou a padrões das edificações do bairro. Toda essa observação cotidiana urbana serve de combustível para Ella iniciar seus procedimentos de composição formal e pictórica, entre doses de referências literárias, como Julio Cortázar e Clarice Lispector, homenageados nos títulos das suas coisas, criando diálogos com coisas já existentes."
Flavio Cerqueira
Trecho do texto curatorial da exposição Tudo e ao mesmo tempo
São Paulo, 2023
Moira
madeira, prego e fogo
11,5cm x 12cm x 3,25cm
2022
Marduk
acrílica e mica s/ napa e madeira
28,5cm x 32cm x 5,5cm
2022
ASSEMBLAGES PICTÓRICAS
Ella Pacheco (Curitiba, Paraná), artista visual e pesquisadora, apresenta uma série de obras que transitam entre o desenho, a pintura e a escultura, cuja apropriação de fragmentos de madeira faz com que se encontrem em assemblages pictóricas.
Por meio da aplicação de faixas de tinta acrílica sobre a madeira ou da cobertura com tecido, Pacheco busca explorar as possibilidades desse material em termos de cor, forma e linha. Em suas composições, combina elementos como pregos, parafusos, lã, napa e aplica sobre eles fogo, cera de abelha e tinta para gerar diferentes efeitos. Esses trabalhos, de pequenas dimensões, transitam entre a produção artesanal e a apropriação de fragmentos industriais, evidenciando uma ambiguidade que reside nessa dualidade entre o manual e o maquinismo que os produziu.
Os títulos, conferidos pela artista, aludem, por vezes, a mitos ancestrais do antigo Egito e da Babilônia. Encontramos menções a Ísis, Osíris e Marduk, que remetem a mitos de origem dessas civilizações antigas. Segundo a artista, esses mitos fundacionais trazem consigo uma preocupação simbólica, referentes a temas como o caos e a organização. Lembremos que Ísis ressuscita seu marido Osíris, após recompor os fragmentos de seu corpo esquartejado. Parece-se com ação de Pacheco cuja ordenação dos materiais descartados habilita-os para outros usos, como a fruição. Marduk, por sua vez, é reconhecido como o criador e organizador do caos – uma reiteração, portanto, do procedimento de Ísis.
Em outros títulos são nomeadas célebres obras do modernismo brasileiro, numa remissão direta à poesia e à literatura. Há referências ao famoso “Poeminha do Contra” (“Eu passarinho!”, 2022), de Mario Quintana, e aos livros “Felicidade Clandestina” e “Um Sopro de Vida” (“Como tornar tudo um sonho acordado?”, 2022), de Clarice Lispector. Nesses casos, a relação parece ser mais lúdica, conferida por aspectos formais que sugerem referentes no mundo – embora predomine a alusão à possibilidade de se transformar aquilo que se tem em algo outro que se passa a ter.
As materialidades das obras de Pacheco, reunidas aparentemente de maneira espontânea dado sua diversidade de naturezas, brincam com formas, superfícies e convenções artísticas. Vemos a paisagem, a arquitetura; parece pintar com a madeira volumétrica em obras que dizem respeito à figuração, mas são fundamentalmente abstratas.
Enfim, por meio da justaposição de elementos diversos, Ella Pacheco opera segundo uma abordagem semelhante àquela da figura do “trapeiro”, isto é, reconfigurando materiais e vestígios retirados da realidade para lhes conceder um novo sentido. Trata-se de uma lógica de negociação desses fragmentos coletados, que preserva o conflito e as particularidades dos materiais.
Suas obras assumem formas que parecem inacabadas, convidando o público a se mover para visualizá-las e exigindo que o olhar seja acompanhado do movimento do corpo diante delas. O efeito de inacabamento, aliado à tridimensionalidade dos objetos, promove essa interação dinâmica com os trabalhos, que apenas se completam quando a pessoa observadora se dispõe a experimentá-los.
Ana Avelar e Marcella Imparato
Texto para o catálogo da exposição Inservíveis
Curitiba, 2024
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